Eulália da Silva Soares, carinhosamente chamada de Dona Eulália, faleceu nesta segunda-feira (28), aos 90 anos, deixando um legado de sabor e tradição em Cuiabá. Conhecida por seus bolinhos de arroz, servidos no chá com bolo realizado em sua casa no bairro da Lixeira, Dona Eulália tornou-se um símbolo da cultura e gastronomia local, recebendo moradores e visitantes há mais de seis décadas.
A neta de Dona Eulália relatou que ela não apresentava problemas graves de saúde. Na manhã de sua morte, contudo, Dona Eulália sentiu dores intensas e, ao chegar ao hospital, sofreu uma parada cardíaca, à qual não resistiu. A perda gerou grande comoção na comunidade, especialmente entre aqueles que frequentavam sua casa para degustar os famosos bolinhos, preparados com técnicas e segredos que remontam a suas raízes e memórias familiares.
Uma trajetória de perseverança e dedicação
Dona Eulália começou a fazer bolinhos de arroz nos anos 1950 para complementar a renda da família. Seu marido, Eurico Avelino Soares, trabalhava como pedreiro, e, juntos, construíram um pequeno negócio que, aos poucos, conquistou Cuiabá. Inicialmente, os bolinhos eram vendidos pelos filhos e netos nas escolas e nas ruas da cidade, o que rapidamente aumentou a popularidade dos quitutes. Em pouco tempo, o chá com bolo, ou “tchá cô bolo” como dizem os cuiabanos, se tornou uma tradição, atraindo pessoas de todas as idades e localidades para sua residência no bairro da Lixeira.
Dona Eulália revela o segredo dos bolinhos e o amor pela tradição
Os bolinhos de arroz de Dona Eulália ganharam fama pelo sabor único, resultado de um processo de preparo artesanal. Ela deixava o arroz de molho e o socava no pilão até transformá-lo em farinha. Em seguida, misturava essa farinha a outros ingredientes frescos e assava a massa em um forno a lenha. Esse método artesanal gerava um aroma e uma textura únicos. Dona Eulália mantinha viva a tradição do patrimônio cultural imaterial ao preparar diversos quitutes, entre eles bolo de queijo, chipa, biscoitos caseiros e seus famosos bolinhos de arroz.
A casa da cozinheira era um ponto de encontro para a comunidade, onde pessoas se reuniam para tomar chá, café ou leite quente, acompanhados de bolinhos sempre frescos. Essa tradição familiar tornou-se uma atração para turistas e um espaço de convívio para os cuiabanos. Pois, Dona Eulália é lembrada como uma figura da representação genuína de hospitalidade e cultura local.
Homenagem a uma lenda viva da cuiabania
Em 2023, a história e o impacto cultural de Dona Eulália ganharam destaque com o projeto transmídia “Cuiabá de Eulália”, que celebra sua contribuição à gastronomia e cultura da cidade. O projeto, contemplado pela Lei Aldir Blanc, incluiu exposições fotográficas, música, um livro digital e uma pintura. Assim, com o objetivo de preservar e homenagear a história de uma das figuras mais queridas de Cuiabá.
A partida de Dona Eulália deixa uma lacuna na cultura cuiabana, mas seu legado continuará vivo na memória do ambiente acolhedor que ela criou. O “tchá cô bolo” da tradicional cozinheira manterá viva a tradição e a dedicação ao trabalho feito com amor por muitas gerações.
