O clima de eleição no Brasil é como final de campeonato entre os times rivais e agressivos. Os candidatos entram em campo com o uniforme engomado, escudo brilhando e, claro, cada um com seu time de torcedores fiéis na arquibancada e com sangue nos olhos. O gramado no caso são as redes sociais onde os dribles, chutes e carrinhos rolam à vontade, só que aqui as faltas não vêm de pernas, mas de palavras afiadas, ofensas e fake News.
De um lado do estádio, a torcida está de bandeira na mão, gritos ensaiados e os memes prontos para entrarem em campo. Do outro lado, com o mesmo entusiasmo, a torcida adversária prepara suas respostas ofensivas, vídeos editados e documentos ilícitos são estratégias. Não importa a jogada, o importante é o ataque: “eles” contra “nós”. A bola pode até ser a mesma, mas cada lado jura de pé junto que o outro joga sujo e que a sua torcida é que merecia o troféu de “honestidade e compromisso”.
À medida que o jogo se intensifica, algo curioso acontece: todos parecem esquecer que, no final, o gramado é o mesmo, e quem vai carregar as consequências do resultado é o time todo, ou seja, o Brasil. Mas, como numa final, a questão aqui é a vitória a qualquer custo – e, no caso das eleições, isso significa vencer não só a urna, mas também as discussões na padaria, as indiretas na família e até o grupo da vizinhança. “Seu time perdeu? “ Chupa essa ou Aceita que dói menos!” E não há juiz que impeça uma briga dessas. Se bobear, a bandeira vira alvo, e cada torcedor, um atacante pronto para derrubar quem ousar dizer o contrário.
No final, o placar está definido e os ânimos, mais acirrados do que nunca. Alguns prometem abandonar o estádio e procurar um “país melhor para jogar”. Outros festejam a vitória como se um gol fosse capaz de resolver a fome, a educação, a saúde – tudo o que realmente deveria estar em jogo. E enquanto torcedores se perdem em sua animosidade, o verdadeiro campeão da noite fica esquecido na sombra: ele responde pelo nome de “desunião”, mas talvez você o conheça melhor como o velho “cada um por si”.
Assim, a eleição termina. Uns vão embora, outros comemoram, mas o gramado está cheio de marcas e praticamente desvalorizado, o placar ainda confuso, e o próximo jogo já promete a mesma tensão. No entanto, quem sabe no próximo campeonato (ou eleição) todos se lembrem de que, independente de quem levante o troféu, o campo ainda será o mesmo – e não há como mudar de time quando o único uniforme possível é a bandeira verde e amarela.
Autor: Ana Lúcia Ricarte
