Vivemos em um tempo em que o sexo é tão acessível quanto um pedido por delivery. Está ali, a um toque de distância, despido de qualquer mistério, transformado em um instante efêmero que começa e termina sem deixar rastros. No entanto, enquanto o sexo se banaliza, o amor — essa palavra ainda carregada de promessas e ideais — permanece uma construção social em constante mutação. E, como qualquer construção, ele exige alicerces que nem sempre vêm prontos.
O mito contemporâneo insiste que o amor é a solução, a chave-mestra para todos os problemas de um relacionamento. E se não der certo? Faltou amor, dizem. Como se o amor fosse um tijolo sólido, suficiente por si só para sustentar as rachaduras que o tempo e as diferenças inevitavelmente impõem.
Mas a verdade é que o amor, por mais intenso e verdadeiro que seja, não constrói um relacionamento sozinho. Ele é, na melhor das hipóteses, o desejo de permanecer, de tentar, de ver o outro — com todos os seus defeitos e suas imperfeições — e ainda assim escolher ficar. E, para isso, é preciso algo que as redes sociais raramente celebram: a capacidade de perdoar.
Perdoar não é esquecer, nem é fingir que as falhas não existem. É olhar para elas com compaixão, entender que o outro carrega suas dores, suas limitações, seus pedaços que não se encaixam perfeitamente nos nossos. Perdoar é conviver com essas arestas, não por conformismo, mas por humanidade.
O problema é que vivemos em uma era que glorifica a perfeição. Perfis impecáveis, corpos esculpidos, relacionamentos sem crises. Somos treinados a descartar o que não funciona perfeitamente, a trocar em vez de consertar. E nessa lógica, o amor que exige paciência e tolerância perde espaço para o sexo que oferece prazer instantâneo e nenhuma cobrança.
Mas o que mantém um relacionamento, no fim das contas, não é o sexo constante, nem o amor idealizado. É a disposição de navegar pelos momentos difíceis, de aceitar que haverá dias em que o desejo não será suficiente, em que o amor não parecerá grande o bastante. É a escolha de permanecer mesmo quando seria mais fácil partir.
Sexo é pele, é química, é instante. Amor é construção, é processo, é escolha. Mas o que realmente sustenta tudo isso é a compaixão: essa rara e preciosa capacidade de ver o outro em sua totalidade, reconhecer seus defeitos e, ainda assim, permanecer de mãos dadas. Porque, no fim, amar é isso — não encontrar alguém perfeito, mas alguém cujos defeitos você esteja disposto a perdoar, todos os dias, em nome de uma construção que vale a pena.
Texto: Ana Lúcia Ricarte
