A árvore piscava com intensidade quase exagerada. Cada piscar parecia uma tentativa desesperada de gritar: “Olhem para mim, eu sou o espírito natalino!” Flávio, no auge dos seus anos de energia interminável, rodopiava pela sala com uma estrela dourada na mão, insistindo que seria ele, e não a árvore, o grande destaque da decoração.
— Mãe, eu posso ser a estrela? Prometo ficar parado em cima do sofá!
Olhei para ele com a mesma expressão de todas as mães prestes a proferir um discurso: entre a paciência e a certeza de que a catástrofe é inevitável.
— Flávio, a estrela fica no topo da árvore, não no sofá.
Ele resmungou algo sobre como eu não entendia a verdadeira magia do Natal. Afinal, quem precisa de uma árvore brilhante quando se tem uma criança com ideias “brilhantes” próprias?
O dia seguiu com mais confusão do que organização. Havia papéis de presente espalhados pelo chão, uma sequência interminável de “Mãe, posso abrir isso agora?” e a cachorra, que parecia acreditar que as fitas douradas eram brinquedos criados exclusivamente para ela.
À noite, enquanto eu tentava salvar o peru do forno (e Flávio tentava convencer a cachorra a usar um gorro de Papai Noel), paramos por um momento. Ele olhou para a sala repleta de luzes, fitas, e a bagunça aconchegante que só o Natal em família pode criar.
— É isso, mãe. Essa bagunça toda é a magia do Natal, né?
Parei para pensar. Talvez ele estivesse certo. A magia não estava nas vitrines impecáveis ou nos comerciais que insistiam em nos convencer de que precisamos de mais um “presente inesquecível”. Não estava nem mesmo no peru que ameaçava queimar. Estava ali, na bagunça, nos risos, no caos sincero de quem só quer estar junto, do jeito que dá.
Mas, como boa mãe filosófica (e levemente cansada), não podia deixar a reflexão morrer ali.
— Flávio, sabe o que é engraçado? As pessoas acham que ser mais humano é sobre ser bondoso, gentil. Mas, às vezes, ser humano significa olhar para si mesmo também, entender o que precisa mudar. E sabe o que mais? A gente podia praticar isso o ano inteiro, sem esperar o Natal. Talvez a verdadeira magia seja só ser mais tolerante, com os outros e com a gente mesmo.
Ele piscou, processando.
— Então, se eu for humano o ano todo, eu posso ser a estrela no próximo Natal?
Eu ri. No fundo, ele já era a nossa estrela. E talvez a mágica esteja mesmo em sermos mais humanos o tempo todo – bagunceiros, imperfeitos, mas sempre dispostos a tentar de novo.
